Descoberta geomorfológica: Campos Belos abriga as primeiras Chaminés de Fada registradas no Brasil

Descoberta geomorfológica: Campos Belos abriga as primeiras Chaminés de Fada registradas no Brasil
Chaminés de Fada localizadas em Campos Belos - GO. (Fonte: arquivo pessoal)

Formações geomorfológicas raras conhecidas internacionalmente como hoodoos – e popularmente chamadas de chaminés de fada – foram identificadas oficialmente no Brasil. O registro inédito ocorreu em uma propriedade rural no município de Campos Belos, localizado no nordeste do estado de Goiás, em uma área de transição com a região da Chapada dos Veadeiros.

A ocorrência dessas estruturas colunares encimadas por blocos rochosos protetores foi validada por pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG), inserindo o país no mapa mundial de ocorrências desse tipo de relevo esculpido por intemperismo e erosão diferencial.

Coluna rochosa de chaminé de fada esculpida por erosão diferencial em Campos Belos, Goiás. (Fonte: arquivo pessoal)

Contexto geomorfológico e litológico

Diferente de ocorrências clássicas internacionais, a exemplo da Capadócia (Turquia), cuja gênese está associada a depósitos vulcânicos e piroclásticos, as formações de Campos Belos possuem origem predominantemente sedimentar.

As colunas foram modeladas ao longo de milhares de anos no leito de um antigo sistema fluvial, sob forte atuação de processos morfogenéticos:

  • Erosão diferencial: o desgaste mecânico e químico atuou de forma heterogênea sobre o substrato. As camadas inferiores, compostas por materiais sedimentares menos consolidados (como arenitos finos, siltitos ou pelitos com cimento carbonático/argiloso), sofreram remoção acelerada pela ação hídrica e eólica. Essas colunas apresentam alta porosidade e baixa coesão quando submetidas à umidade.
  • Efeito de proteção estrutural: blocos de litologias superiores mais resistentes permaneceram no ápice das colunas, atuando como um “capuz” ou blindagem protetora que retardou o intemperismo vertical direto sobre o eixo da coluna, gerando torres verticais isoladas. Esses blocos atuam como uma verdadeira blindagem estrutural, dissipando a energia mecânica direta das gotas de chuva e retardando o intemperismo vertical imediato sobre o eixo da coluna.

Manejo de visitação e diretrizes de conservação

Devido à alta fragilidade estrutural das torres de arenito e à sensibilidade da matriz sedimentar ao pisoteio e à compactação, a abertura do local em 2026 foi precedida por um rigoroso planejamento de geoconservação e gestão de visitantes.

Feições do tipo hoodoos são extremamente vulneráveis à ação antrópica; o toque humano frequente, a remoção de microcoberturas vegetais ou o escalonamento das rochas aceleram o desgaste em ordens de grandeza geologicamente incompatíveis com a preservação do patrimônio. Para mitigar esses riscos, o plano de manejo implementado na área estabelece:

  • Capacidade de carga diária: o acesso é limitado a um teto operacional de 50 visitantes por dia, garantindo baixa densidade de ocupação na trilha.
  • Logística de acesso: as visitas exigem agendamento prévio via plataforma digital e são condicionadas ao acompanhamento obrigatório de condutores credenciados (em proporção de um guia para grupos de até seis pessoas, percorrendo um trajeto de cerca de 3 km de nível moderado).
  • Conduta restritiva: é vedado o contato físico direto com as estruturas, o acesso ao topo das colunas e a coleta de amostras geológicas ou minerais na área.
Chaminés de Fada localizadas em Campos Belos – GO. (Fonte: arquivo pessoal)

A validação técnico-científica das Chaminés de Fada em Campos Belos abre novas perspectivas para a pesquisa geomorfológica no Brasil e consolida o potencial do nordeste goiano para o turismo científico e de base comunitária. A iniciativa demonstra a viabilidade de conciliar a geodiversidade regional com estratégias rígidas de conservação ambiental e desenvolvimento socioeconômico local.

Caio Calassa

Engenheiro Florestal, formado pela UFG. Profissional de Marketing, pós-graduado em Marketing Estratégico Digital e estudante de Jornalismo. Utilizo dos meus conhecimentos na comunicação para levar informações dos setores florestal e ambiental ao maior número de pessoas (estudantes, profissionais e sociedade).