Adaptações morfológicas: como a estrutura da casca garante a sobrevivência de árvores do Cerrado ao fogo

A capacidade de sobrevivência das árvores do Cerrado após a passagem do fogo é um dos principais fatores de resiliência desse ecossistema. Embora visualmente as queimadas possam sugerir perda total de fitomassa aérea, a rebrota observada poucas semanas após o evento é explicada por especializações morfológicas específicas. A principal delas é a presença de uma casca espessa, que atua como barreira física e isolante térmico para os tecidos vivos do tronco.
O súber como isolante térmico
Em termos de anatomia vegetal, o tecido responsável pela proteção térmica do caule é o súber (composto por células mortas, preenchidas por ar e ricas em suberina). A principal função biológica do súber durante uma queimada é impedir que a temperatura no câmbio vascular (o meristema lateral responsável pelo crescimento em diâmetro da planta) atinja a temperatura letal de aproximadamente 60 ºC.

Se o câmbio vascular for exposto a essa temperatura crítica, ocorre a coagulação das proteínas celulares e a morte do tecido (anelamento térmico), interrompendo o transporte de seiva elaborada pelo floema e levando a planta à morte.
Fisicamente, a eficiência da casca como isolante depende de três variáveis principais:
- Espessura da casca: estudos empíricos demonstram que a espessura da casca é o fator isolante mais importante. Há uma relação diretamente proporcional entre a espessura do súber e o tempo necessário para que o calor atinja o câmbio.
- Condutividade térmica: o súber possui baixa condutividade devido ao ar retido em suas células. Isso faz com que a taxa de transferência de calor da superfície externa para o interior seja extremamente lenta.
- Teor de umidade da casca: a presença de água na casca externa pode aumentar temporariamente a resistência, pois parte da energia do fogo é consumida na evaporação da umidade antes de aquecer o tecido interno.
Espécies representativas e suas estruturas de defesa
Diferentes espécies do Cerrado sensu stricto apresentam variações na densidade e na morfologia de suas cascas, possuindo estratégias adaptativas distintas:
- Lobeira (Solanum lycocarpum): Apresenta uma casca espessa, altamente fissurada e macia (com aspecto esponjoso). Essa estrutura porosa aprisiona uma quantidade significativa de ar, o que otimiza o isolamento térmico em incêndios rápidos de superfície.
- Barbatimão (Stryphnodendron adstringens): Caracteriza-se por uma casca espessa e compacta, rica em taninos. Os taninos, além de conferirem rigidez estrutural, possuem propriedades antissépticas e adstringentes que protegem o tecido vivo contra patógenos oportunistas (como fungos) que tentam colonizar as fissuras causadas pelo calor após a queimada.
- Lixeira (Curatella americana): Possui casca espessa que se desprende em placas papiráceas (semelhantes a papel). Essa descamação controlada ajuda a eliminar as camadas mais externas que foram carbonizadas, facilitando a recuperação e a respiração do caule.
Leia também: Além das árvores retorcidas: as diferentes fitofisionomias do Cerrado e suas características
Limite físico: fogo de baixa vs. alta intensidade
A eficiência protetora da casca não é ilimitada e está diretamente condicionada ao regime de fogo (frequência, intensidade e época do ano).
| Tipo de evento | Temperatura média no solo | Impacto no câmbio vascular | Tempo de recuperação da casca |
| Fogo Natural (transição seca-chuva) | Baixa a moderada | Proteção eficiente; calor não atinge a temperatura letal de 60 ºC. | Rápida recomposição do súber pelo felogênio. |
| Incêndio Antrópico (auge da seca) | Alta (frequentemente 400 ºC) | O calor prolongado supera a capacidade de isolamento; ocorre necrose do câmbio. | Comprometida; a alta frequência de fogo impede o restabelecimento do tecido protetor. |
Quando os incêndios ocorrem no final da estação seca (agosto e setembro), o acúmulo de biomassa fina seca (combustível) e a baixa umidade relativa do ar elevam drasticamente o tempo de residência do fogo. Nessas condições, mesmo árvores com casca espessa sofrem danos severos, pois o calor contínuo vence a barreira do súber por condução térmica prolongada.
Referência e Contexto Científico: pesquisas de ecologia do fogo no Cerrado apontam que a frequência ideal de fogo para a manutenção da dinâmica do bioma sem causar mortalidade de espécies lenhosas deve respeitar intervalos mínimos de 3 a 4 anos. Esse é o tempo estimado para que espécies de casca grossa recuperem a espessura original do súber danificado pelo fogo anterior.
Fontes e leituras recomendadas
Para garantir o rigor técnico e permitir o aprofundamento no tema, o Floresta em Foco utilizou as seguintes referências científicas e bases de dados:
- MIRANDA, H. S.; BUSTAMANTE, M. M. C.; MIRANDA, A. C. The Fire Regime in Brazilian Savannas. In: Tropical Fire Ecology, 2009. (Trabalho de referência do Laboratório de Ecologia do Fogo da Universidade de Brasília – UnB, que detalha a temperatura letal cambial de 60 ºC e as taxas de condutividade térmica do súber).
- RIBEIRO, J. F.; WALTER, B. M. T. As Principais Fitofisionomias do Bioma Cerrado. In: Cerrado: Ecologia e Flora, Embrapa Cerrados, 2008. (Estudo morfológico fundamental que descreve as adaptações adaptativas de casca das espécies lenhosas do Cerrado sensu stricto).
- HOFFMANN, W. A. et al. Forest-savanna transition: Roles of fire, demography, and bark traits. In: Ecology Letters, 2012. (Pesquisa empírica que analisa quantitativamente a relação direta entre a espessura da casca e o tempo de resistência ao fogo em espécies lenhosas tropicais).
- INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais): Programa Queimadas (Portal de Monitoramento). Disponível em:
queimadas.dgi.inpe.br. (Dados estatísticos sobre recorrência e sazonalidade de incêndios antrópicos na estação seca no bioma). - CEMIG / Prevfogo (Ibama): Manuais de Manejo Integrado do Fogo (MIF). (Diretrizes técnicas sobre a janela de queima segura na transição seca-chuva e o impacto do fogo contínuo).


