Adaptações morfológicas: como a estrutura da casca garante a sobrevivência de árvores do Cerrado ao fogo

Adaptações morfológicas: como a estrutura da casca garante a sobrevivência de árvores do Cerrado ao fogo
Árvores do Cerrado após passagem de fogo experimental. (Foto: Marcio Martins/Revista Pesquisa Fapesp)

A capacidade de sobrevivência das árvores do Cerrado após a passagem do fogo é um dos principais fatores de resiliência desse ecossistema. Embora visualmente as queimadas possam sugerir perda total de fitomassa aérea, a rebrota observada poucas semanas após o evento é explicada por especializações morfológicas específicas. A principal delas é a presença de uma casca espessa, que atua como barreira física e isolante térmico para os tecidos vivos do tronco.

O súber como isolante térmico

Em termos de anatomia vegetal, o tecido responsável pela proteção térmica do caule é o súber (composto por células mortas, preenchidas por ar e ricas em suberina). A principal função biológica do súber durante uma queimada é impedir que a temperatura no câmbio vascular (o meristema lateral responsável pelo crescimento em diâmetro da planta) atinja a temperatura letal de aproximadamente 60 ºC.

Detalhe do súber desenvolvido e marcas de fogo (disponível em: Mato & Cia)

Se o câmbio vascular for exposto a essa temperatura crítica, ocorre a coagulação das proteínas celulares e a morte do tecido (anelamento térmico), interrompendo o transporte de seiva elaborada pelo floema e levando a planta à morte.

Fisicamente, a eficiência da casca como isolante depende de três variáveis principais:

  1. Espessura da casca: estudos empíricos demonstram que a espessura da casca é o fator isolante mais importante. Há uma relação diretamente proporcional entre a espessura do súber e o tempo necessário para que o calor atinja o câmbio.
  2. Condutividade térmica: o súber possui baixa condutividade devido ao ar retido em suas células. Isso faz com que a taxa de transferência de calor da superfície externa para o interior seja extremamente lenta.
  3. Teor de umidade da casca: a presença de água na casca externa pode aumentar temporariamente a resistência, pois parte da energia do fogo é consumida na evaporação da umidade antes de aquecer o tecido interno.

Espécies representativas e suas estruturas de defesa

Diferentes espécies do Cerrado sensu stricto apresentam variações na densidade e na morfologia de suas cascas, possuindo estratégias adaptativas distintas:

  • Lobeira (Solanum lycocarpum): Apresenta uma casca espessa, altamente fissurada e macia (com aspecto esponjoso). Essa estrutura porosa aprisiona uma quantidade significativa de ar, o que otimiza o isolamento térmico em incêndios rápidos de superfície.
  • Barbatimão (Stryphnodendron adstringens): Caracteriza-se por uma casca espessa e compacta, rica em taninos. Os taninos, além de conferirem rigidez estrutural, possuem propriedades antissépticas e adstringentes que protegem o tecido vivo contra patógenos oportunistas (como fungos) que tentam colonizar as fissuras causadas pelo calor após a queimada.
  • Lixeira (Curatella americana): Possui casca espessa que se desprende em placas papiráceas (semelhantes a papel). Essa descamação controlada ajuda a eliminar as camadas mais externas que foram carbonizadas, facilitando a recuperação e a respiração do caule.

Leia também: Além das árvores retorcidas: as diferentes fitofisionomias do Cerrado e suas características

Limite físico: fogo de baixa vs. alta intensidade

A eficiência protetora da casca não é ilimitada e está diretamente condicionada ao regime de fogo (frequência, intensidade e época do ano).

Tipo de eventoTemperatura média no soloImpacto no câmbio vascularTempo de recuperação da casca
Fogo Natural (transição seca-chuva)Baixa a moderadaProteção eficiente; calor não atinge a temperatura letal de 60 ºC.Rápida recomposição do súber pelo felogênio.
Incêndio Antrópico (auge da seca)Alta (frequentemente 400 ºC)O calor prolongado supera a capacidade de isolamento; ocorre necrose do câmbio.Comprometida; a alta frequência de fogo impede o restabelecimento do tecido protetor.

Quando os incêndios ocorrem no final da estação seca (agosto e setembro), o acúmulo de biomassa fina seca (combustível) e a baixa umidade relativa do ar elevam drasticamente o tempo de residência do fogo. Nessas condições, mesmo árvores com casca espessa sofrem danos severos, pois o calor contínuo vence a barreira do súber por condução térmica prolongada.

Referência e Contexto Científico: pesquisas de ecologia do fogo no Cerrado apontam que a frequência ideal de fogo para a manutenção da dinâmica do bioma sem causar mortalidade de espécies lenhosas deve respeitar intervalos mínimos de 3 a 4 anos. Esse é o tempo estimado para que espécies de casca grossa recuperem a espessura original do súber danificado pelo fogo anterior.

Fontes e leituras recomendadas

Para garantir o rigor técnico e permitir o aprofundamento no tema, o Floresta em Foco utilizou as seguintes referências científicas e bases de dados:

  • MIRANDA, H. S.; BUSTAMANTE, M. M. C.; MIRANDA, A. C. The Fire Regime in Brazilian Savannas. In: Tropical Fire Ecology, 2009. (Trabalho de referência do Laboratório de Ecologia do Fogo da Universidade de Brasília – UnB, que detalha a temperatura letal cambial de 60 ºC e as taxas de condutividade térmica do súber).
  • RIBEIRO, J. F.; WALTER, B. M. T. As Principais Fitofisionomias do Bioma Cerrado. In: Cerrado: Ecologia e Flora, Embrapa Cerrados, 2008. (Estudo morfológico fundamental que descreve as adaptações adaptativas de casca das espécies lenhosas do Cerrado sensu stricto).
  • HOFFMANN, W. A. et al. Forest-savanna transition: Roles of fire, demography, and bark traits. In: Ecology Letters, 2012. (Pesquisa empírica que analisa quantitativamente a relação direta entre a espessura da casca e o tempo de resistência ao fogo em espécies lenhosas tropicais).
  • INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais): Programa Queimadas (Portal de Monitoramento). Disponível em: queimadas.dgi.inpe.br. (Dados estatísticos sobre recorrência e sazonalidade de incêndios antrópicos na estação seca no bioma).
  • CEMIG / Prevfogo (Ibama): Manuais de Manejo Integrado do Fogo (MIF). (Diretrizes técnicas sobre a janela de queima segura na transição seca-chuva e o impacto do fogo contínuo).

Caio Calassa

Engenheiro Florestal, formado pela UFG. Profissional de Marketing, pós-graduado em Marketing Estratégico Digital e estudante de Jornalismo. Utilizo dos meus conhecimentos na comunicação para levar informações dos setores florestal e ambiental ao maior número de pessoas (estudantes, profissionais e sociedade).