Como as fake news moldam a percepção da sociedade sobre as mudanças climáticas

Como as fake news moldam a percepção da sociedade sobre as mudanças climáticas
A disseminação de notícias falsas vem prejudicando a conscientização ambiental (imagem: criada por IA)

A crise climática é um dos maiores desafios da atualidade; no entanto, enfrenta um inimigo silencioso e poderoso: a desinformação. Em especial, as chamadas fake news — informações falsas ou enganosas, produzidas ou compartilhadas intencionalmente — têm afetado a forma como a sociedade percebe e reage às mudanças climáticas. E com o avanço da inteligência artificial (IA) e dos algoritmos de recomendação das redes sociais, essa manipulação da percepção pública tornou-se ainda mais sofisticada, rápida e difícil de conter.

Como as fake news moldam a percepção da sociedade

Pesquisas internacionais mostram que há um amplo apoio global à ação climática: segundo o estudo People’s Climate Vote (ONU/2025), 89% das pessoas em 125 países querem medidas mais duras para conter o aquecimento global. No entanto, muitas dessas pessoas acreditam estar em minoria. Esse fenômeno é conhecido como “espiral do silêncio”, em que os indivíduos deixam de se manifestar por acharem que suas opiniões são impopulares — percepção distorcida alimentada por campanhas de fake news.

As fake news climáticas agem minando a confiança na ciência, confundindo a opinião pública com supostos “debates” que já foram resolvidos no campo científico, e estimulando teorias da conspiração como “o aquecimento global é uma farsa criada por governos” ou “a mudança climática é um ciclo natural sem relação com atividades humanas”. Isso gera desmobilização social, resistência política a políticas ambientais e até mesmo hostilidade contra cientistas e ativistas.

No Brasil, esse tipo de desinformação é particularmente preocupante em regiões vulneráveis, como áreas amazônicas ou comunidades ribeirinhas, onde os efeitos das mudanças climáticas são sentidos de forma direta — entretanto, o acesso à informação confiável é limitado.

O papel da IA na criação e amplificação de fake news climáticas

Com a popularização de ferramentas de inteligência artificial generativa, como ChatGPT, Midjourney, Sora ou DALL·E, tornou-se fácil e barato criar conteúdos falsos altamente convincentes. Estamos falando de textos com tom jornalístico, vídeos realistas, áudios de personalidades falsificados (deepfakes) e imagens de desastres climáticos que nunca aconteceram. Esses conteúdos são usados para provocar medo, confusão ou descrença na população.

Além disso, algoritmos de recomendação das redes sociais (como Facebook, Instagram, X e TikTok) priorizam publicações que geram mais cliques, comentários e compartilhamentos — o que, frequentemente, significa privilegiar conteúdos sensacionalistas e falsos. A IA entra novamente em cena, sendo usada para personalizar essas mensagens, direcionando-as para públicos mais suscetíveis, como grupos politicamente polarizados ou com baixa educação ambiental.

Essa lógica cria um ciclo vicioso:

  1. IA gera fake news climáticas com base em interesses econômicos ou ideológicos;
  2. Algoritmos amplificam essas mensagens nas redes, buscando engajamento;
  3. Usuários acreditam que tais ideias representam a maioria;
  4. A opinião pública se desinforma, desacreditando em soluções reais e urgentes.

Efeitos sociais e políticos da desinformação climática

Os impactos dessa manipulação da percepção social são concretos:

  • Desmobilização: pessoas deixam de participar de movimentos ou ações ambientais por acharem que não vale a pena ou que “é tudo exagero”;
  • Negacionismo político: líderes e partidos usam essas percepções distorcidas para justificar políticas antiambientais ou o desmonte de legislações de proteção;
  • Polarização: o clima se torna um tema ideológico, e não científico, dificultando consensos em políticas públicas;
  • Desaceleração da ação climática: governos e empresas adiam ou cancelam medidas estruturais por falta de pressão social.

Como a sociedade pode se proteger contra fake news climáticas?

A boa notícia é que o combate à desinformação começa com a informação de qualidade. Aqui estão algumas formas práticas de se proteger:

Verifique a fonte

  • Priorize conteúdos de veículos jornalísticos reconhecidos (BBC, El País, Folha, Estadão, DW Brasil, National Geographic, The Guardian).
  • Desconfie de postagens que não citam fontes ou dados.

Use plataformas de checagem de fatos

Pergunte: isso faz sentido?

  • O conteúdo apela para emoções fortes (raiva, medo, indignação)?
  • A linguagem é sensacionalista ou catastrófica?
  • Há erros de ortografia, imagens distorcidas, ou promessas vagas?

Busque o contraditório

  • Leia opiniões diferentes, desde que estejam ancoradas em dados científicos;
  • Considere o que dizem universidades, centros de pesquisa e ONGs ambientais sérias (como IPCC, Instituto Clima e Sociedade, Greenpeace, WWF, ClimaInfo).

Use ferramentas e extensões no navegador

Também é possível instalar extensões nos navegadores (Google Chromme, por exemplo), que verificam se determinados conteúdos foram gerados por inteligência artificial, tais como:

  • InVID – para analisar vídeos e detectar manipulações;
  • Who Shared It (Aos Fatos) – identifica quem compartilhou determinada informação;
  • SurfSafe – verifica se imagens já foram usadas em outros contextos.

Caminhos para enfrentar esse cenário

A boa notícia é que a própria tecnologia pode ser usada a favor da verdade. Existem iniciativas promissoras como:

  • IA para checagem de fatos: algoritmos treinados para detectar notícias falsas, padrões de desinformação e imagens manipuladas;
  • Educação midiática e ambiental: formar leitores críticos e cientificamente informados;
  • Regulação das plataformas: exigir transparência nos algoritmos e moderação responsável de conteúdo;
  • Parcerias público-privadas e intergovernamentais: como a coalizão brasileira criada em 2025 com apoio da Secom, Itamaraty, Unesco e universidades para combater a desinformação climática.

O avanço da inteligência artificial e dos algoritmos de recomendação tem acelerado a produção e a disseminação de fake news sobre as mudanças climáticas, moldando negativamente a percepção da sociedade sobre o problema. Para lidar com essa nova realidade, é fundamental fortalecer a educação midiática, promover a alfabetização científica, exigir transparência tecnológica e apoiar jornalismo de qualidade.

A desinformação climática é uma ameaça real, mas com informação confiável, pensamento crítico e ação coletiva, é possível combate-la.

Artigos analisados para construção desta máteria:

Fake news e emergência climática, uma combinação explosiva – 30/11/2023 – Educação – Folha

‘Spiral of silence’: climate action is very popular, so why don’t people realise it? | Climate crisis | The Guardian

Sem checagem, fake news sobre crise climática devem aumentar nas redes sociais | Fast Company Brasil

Como a desinformação impacta a ação climática? – PET Educom Clima

Revista Casa Comum – Fake News também destroem o meio ambiente

Governo cria rede para combater desinformação sobre mudanças climáticas | Blogs | CNN Brasil

É preciso dizer o óbvio: a crise climática não é fake news – Jornal da USP

O desafio de combater as fake news | Sociedade | Um só Planeta

IA aumenta consumo de energia e acelera desinformação climática | Olhar Digital

The Double-Edged Sword of AI and the Battle Against Climate Change Misinformation – Earth Day

Caio Calassa

Engenheiro Florestal, formado pela UFG. Profissional de Marketing, pós-graduado em Marketing Estratégico Digital e estudante de Jornalismo. Utilizo dos meus conhecimentos na comunicação para levar informações dos setores florestal e ambiental ao maior número de pessoas (estudantes, profissionais e sociedade).